domingo, 18 de abril de 2010

O exemplo T(h)ree

Na última edição de “Próximo Oriente”, o destaque foi inteiro para a iniciativa “T(h)ree” - New Musical Roots From Portugal, Hong Kong and Macau”. Trata-se de um projecto que reuniu um total de 33 bandas e 100 músicos dos três territórios na gravação de 17 temas que vão ser editados num disco a ser lançado em Maio.

A propósito desta iniciativa que nunca será demais saudar, algumas reflexões.

Mais do que uma palavra, “globalização” é um conceito já gasto de tantas e tantas vezes repetido neste mundo admiravelmente novo e, no entanto, sempre velho.  

Tal como as palavras que perdem sentido depois de as dizermos inúmeras vezes seguidas, também o significado de “globalização” se dissipa, tantas são as vezes que o globo nos entra casa adentro, dando a sensação de que já vivemos num mundo tão global quanto pequeno. Tanto, que chamar-lhe global deixa simplesmente de fazer sentido, pois o “todo” é, afinal, pouco, minúsculo. 

É também por resistir a alguns equívocos, tais como a noção de que o mundo é hoje um espaço exíguo por causa da globalização, e, ao mesmo tempo, por resistir ao desgaste do significado da globalização, que o projecto “T(h)ree” merece ser celebrado.  

Uma das virtudes desta iniciativa é, pois, mostrar-nos que “globalização” é um conceito que ainda faz sentido se tiver um papel na diminuição da distância entre dois pontos realmente (por oposição a virtualmente) longínquos.

Depois, “T(h)ree” mostra-nos que o mundo é ainda o mesmo lugar de sempre, o mesmo planeta, a Terra com as mesmas geografias, latitudes e longitudes. Tudo permanece remoto na distância apenas possível ao que existe e é real, que é físico. E só haverá “globalização” enquanto houver esta distância.

Outro mérito é o pioneirismo deste projecto.

aqui se comentou, a propósito de um programa de intercâmbios entre produtores de música electrónica oriundos da Alemanha e de vários países do Sudeste Asiático e da Oceânia, com o alto patrocínio do Goethe Institut, que estamos (nós, portugueses), longe de imaginar semelhante iniciativa partir de Portugal.

Mesmo com os laços construídos em séculos de relações com este lado extremamente oriental do mundo, Portugal continua um país ausente.

Com a excepção de uns leitorados de Português timidamente espalhados por esta parte do mundo – e em número que tem vindo a ser reduzido nos últimos anos – não existem políticas, acções e nem sequer ideias consequentes de promoção ou diplomacia cultural. 

Apesar disso, ou por causa disso - resistir pode ser força motriz - estamos a dias de um projecto pioneiro e raro ver a luz do dia.

Aqui cabe uma palavra de apreço pelo trabalho incansável do autor desta iniciativa, David Valentim.

O mais difícil está feito. Agora espera-se que as águas da indiferença onde voga a relação cultural entre Portugal, Macau e Hong Kong se agitem para receber e celebrar este T(h)ree. E que reguem estas novas raízes, para que floresçam.

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